Comportamento

Quando um manipulador narcisista perverso percebe que a vítima ficou consciente, primeiro começará a se rebelar ameaçando sair da relação, com o objetivo de assustá-la e acuá-la. Se não surtir efeito, entrará na fase do “volte a dormir”, se tornando tudo o que a vítima sempre quis, agradável e adorável, mas isso não se sustentará e faz parte do círculo vicioso do relacionamento tóxico.

Se você tiver a ilusão de que esse relacionamento poderá melhorar, saiba que tais manipuladores podem ser profundamente malévolos; atravessam a vida cheios de ódio e raiva, mas não contam nem para si mesmos que assim o são, por isso mesmo que de modo obscuro destilam suas piores emoções nos outros. Atente que o que diferencia um narcisista perverso de um narcisismo “normal” será sempre o nível de sadismo e crueldade implicado nas relações.

Sobre a origem da construção da personalidade dos narcisistas psicopatas, as respostas variam. Alguns autores vão colocá-los na conta de situações de incesto vivenciadas concreta ou ilusoriamente, ou fruto de uma relação perversa com um pai, irmão ou irmã. Independente de como ou do porquê se tornaram o que são, não é possível de se tratar terapeuticamente esses indivíduos por várias razões.

Em primeira instância, porque eles não estão buscando ajuda. São orgulhosos do que são e não reconhecem que tem um problema. Seu sistema de crenças não está preparado para aceitar críticas e, em terapia, jamais assumem suas parcelas de responsabilidade. Quando um manipulador desta ordem vai para a terapia, continua agindo de forma manipuladora, com a ilusão de que vai mudar. Via de regra, começam e cancelam poucas sessões depois.

💎Quanto mais despertos, melhor!⠀

Silvia Malamud⠀

Fontes de referência: Le témoignage de Marie Murski, victime d'un pervers narcissique. Le récit de Vincent P., qui a vécu 7 mois avec une femme manipulatrice.

A série MAID, da Netflix

[Contém spoiler]

A série Maid (Netflix) conta sobre um dos piores e mais devastadores tipos de abusos, atualmente consagrado tanto pela psicologia como pela psiquiatria como uma violência silenciosa e de difícil detecção.

A protagonista Alex vem de um lar disfuncional, com uma mãe bipolar não diagnosticada e, portanto, não tratada, distante e autocentrada. Ao longo da série, mesmo quando bem intencionada, essa mãe não consegue se conectar com a filha. Em seus surtos de mania, imagina-se como uma grande artista, sem noção da realidade e em negação de seus relacionamentos abusivos. Também podemos observar em sua personalidade um tom histriônico.

Alex, por sua vez, não tem ideia de que tem uma família disfuncional e abusiva. Desenvolve um excesso de zelo, cuidados e empatia com essa mãe, aprendendo a não se posicionar, a não ter desejos próprios e vivendo em função de ser mãe da própria mãe em busca de um pouco de paz e segurança. Ser conivente era a única saída para terem um mínimo de conexão. Os abusos que sofreu na infância se tornaram um modelo de referência de como ser, a ponto de Alex repetir cenários abusivos em seu próprio relacionamento afetivo.

Quando pensamos em transgeracionalidade de traumas e recursos, percebemos a história se repetindo. Alex também foge do lugar de abuso com sua criança, tal como sua mãe, porém busca ajuda, terapia e faz de tudo para ficar lúcida e alcançar seu propósito. Até despertar de fato, Alex só sabia viver e se submeter ao sistema agressivo de onde veio. Sua identidade estava baseada nisso e sentia a possibilidade de ser acolhida por seu abusador, acreditando que ele seria bom.

Abusadores perversos geralmente se sentem bem cuidando de quem está doente. Não à toa, Sean ajudou Alex a resgatar a mãe de um grave surto de mania, quando esta, impotente, nada conseguia fazer. A personagem se encanta com o ex depois de tanto acolhimento, acreditando que tudo poderia dar certo, sem perceber que sucumbia mais uma vez ao mesmo drama.

Algumas pessoas acusam Alex de ser mimada e não ter aceitado a ajuda de Nate, mas ela não conseguiria - estava com traumas severos e muitos gatilhos emocionais. Não sabia receber coisas boas, estava familiarizada com a dor e com o auto sacrifício. Quando algo bom se manifestava, Alex desconfiava, sentia-se confusa e não merecedora. Viveu sob violência doméstica, sofreu, sentiu medo e teve de ficar adulta precocemente.

Vítima de tramas abusivas, não recebeu amor e se via obrigada a oferecer tudo o que tinha de afeto e cuidados para o outro. Quando não fazia isso ou quando o outro não achava ser suficiente, sentia-se culpada, com medo de não receber o mínimo do que o outro tinha a oferecer, um imaginário de "lar quentinho", incapaz de perceber que esse lugar é e sempre foi ela mesma.

A série expõe, ainda, preconceitos e dramas relacionados às diferenças sociais e de classe - em especial na passagem de Alex com uma de suas patroas. As cenas trazem à tona a dificuldade de moradia e mostram como um lar disfuncional dificulta o desenvolvimento e os estudos. Por outro lado, também mostra a resiliência e bondade de uma rede de apoio, tão necessária para o ser humano.

💎Quanto mais despertos, melhor!

Silvia Malamud

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